5 de maio de 2011
A PRIMEIRA MEMÓRIA E A HISTÓRIA DO AMANHÃ
Minha primeira lembrança futebolística foi a de estar sentado no chão da sala do meu tio vendo a final de 94 entre Brasil e Itália. Não
recordo detalhe nenhum da partida, apenas de falar “estou torcendo para ir para os pênaltis” e ouvir um “fica quieto” por causa disso. Não estava torcendo contra, tinha apenas quatro anos e as penalidades me pareciam tão interessantes. Afinal, em qual momento a história se torna inesquecível?
Anos passaram e essa memória mais me parece uma lenda. Não consigo dizer que tenho certeza que isso aconteceu ou se era apenas um sonho. Prefiro não saber. Em algum ponto de nossas vidas nós escolhemos torcer ou não torcer para este ou outro time (até os que não ligam para futebol). Algum dia e em algum lugar uma criança ganhou uma camisa do Flamengo. Ela ainda não entende o que as pessoas tanto falam à sua volta. A
traída pelas cores e pelo desejo do tato, ela agarra a camisa. Talvez ela tenha feito a sua escolha, talvez não. Um, dois, três, dias, semanas, meses ou anos. Chegou o dia em que o bebê cresceu, seguiu o pai rubro-negro e aprendeu a palavra Zico.
Nunca havia presenciado uma partida de futebol, mas conhece o nome. Não importa se é flamenguista, tricolor, corintiano, cruzeirense, botafoguense, vascaíno, etc. Quando o nome é o que se ouve primeiro, o que se vê só eterniza o ídolo. A criança se pergunta por que ele é tão emblemático? Certa vez ela senta na arquibancada e tudo faz sentido. Ele fez aquilo que nenhum desses consegue fazer. Uma sensação que não se esquece.
Naquele dia em que Taffarel fez história, um ídolo nasceu para mim. Não conhecia nenhum outro goleiro, mas afirmava com todas as letras que ele era o melhor do mundo. O tempo passa, as pessoas mudam de opinião, reformulam idéias, mas não se esquecem daquele sentimento.
Ano que vem nascerá um bebê em uma maternidade no Porto. Ele crescerá em um quarto azul e branco. Brincará no cercadinho com seu brinquedo favorito, um dragão de pelúcia. Um dia ele
ouvirá histórias sobre Hulk, Falcão, Helton e Cia. Noutro dia ele irá ao estádio e tudo se encaixará perfeitamente, nesse dia a história construída por este time será tarimbada com o selo de inesquecível.
Para alguns, a luz que aponta para o futuro brilha um azul estelar com um paraíso branco de glória esperando para ser preenchido. Para outros, a batalha é mais sangrenta e o vermelho pintado no chão é um caminho honroso recheado de obstáculos formidáveis. Para outros, o luz verde é o sinal do eletrocardiograma instalado na parede branca do hospital. Para esses, o som de aplausos e gritos e cânticos são silenciados pela monotonia do bip, com uma bola de borracha quicando em um quarto vazio.











