out 15th, 2010
ENTREVISTA – RUY GUIMARÃES E ARILDE ALVARES, DO BLOG CAMISA DO BAHIA
No futebol, assim como em outros esportes, os materiais que carregam as cores e os distintivos dos clubes convertem-se em elementos de imediata identificação por parte dos torcedores. À camisa, em particular, atribui-se uma importância que ultrapassa, em muito, aquela do terreno de jogo. A camisa é um símbolo associado diretamente aos resultados e a história dos clubes. É comum, por exemplo, ouvirmos, no meio do futebol, que, determinada agremiação “tem camisa”, fazendo menção à sua história e conquistas, ou “não tem camisa”, deixando clara a sua pouca expressividade. A camisa é, em suma, um sinônimo da tradição que um clube constrói.
E para provar que o Esporte Clube Bahia tem, mais do que camisa, camisas, foi criado o blog Camisa do Bahia. Através das camisas do tricolor de aço, o espaço narra e analisa momentos gloriosos, dramáticos e curiosos da história do clube. A iniciativa partiu de dois juramentados tricolores da Boa Terra: Ruy Guimarães Botelho, de 36 anos e quase 150 divisas do Bahia nos armários – a primeira delas, segundo ele, era vermelha e foi vestida logo após sua saída da maternidadade; e Arilde Alvares Guimarães Junior, 32, que comprou sua primeira camisa em 1999.
Enquanto curtem e dividiem sua coleção com o público fã de futebol, os dois amigos bateram um papo exclusivo com o Esquadrão Interativo, em que falaram (claro) sobre sua relação com as camisas bahienses, a transformação geral que os uniformes vêm sofrendo, e o Bahia de hoje, na expectativa de um retorno do time à Série A e da abertura política do clube para os sócios. Idênticos em sua maneira de pensar, Ruy e Arilde são simpatizantes da ideia de terceiras camisas para os clubes, estão com saudade da Fonte Nova e advertem: o Esporte Clube Bahia precisa ter mais cuidado com a memorabília que compõe a sua história.
Vamos nessa?

O blog Camisa do Bahia: análise e recordações históricas através das divisas tricolores (Foto: reprodução camisadobahia.blogspot.com)
ESQUADRÃO INTERATIVO – Quando vocês começaram a colecionar as camisas do Bahia?
RUY - Coleção, mesmo, só a partir de 2006 (até lá, já tinha seis camisas).
ARILDE - Eu comecei a comprar camisas do Bahia em 1999, e comprava esporadicamente uma ou outra, de determinado ano. Só comecei a tomar gosto mesmo em 2005, ano em que a coleção engrenou.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Ao todo, as coleções de vocês tem quantas camisas?
RUY - Do Bahia, 148. Tenho mais “cinqüenta e poucas” de outros times ou seleções.
ARILDE - No total, hoje tenho 242 camisas, 89 do Bahia e 153 de outros times e seleções. Aliás, comecei a colecionar camisas de outros times antes mesmo das do Bahia. Não compro de tudo: tenho focos bem definidos na coleção – mas as xodós são as tricolores mesmo.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Nas coleções de vocês existem “camisas-amuleto” – aquelas que dão mais sorte em dia de jogo, por exemplo?
RUY - Na verdade, nunca uso camisas do Bahia em dias de jogo. Fico com medo de, em caso de derrota, “culpar” a camisa e não querer mais vesti-la.
ARILDE - Não, não sou supersticioso. Mas, no estádio, só assisto vestido com alguma camisa do Bahia.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Dentre todas, qual foi a camisa mais difícil de encontrar?
RUY - Uma tricolor, da marca CCS, que Arilde encontrou num site de vendas e que estava na Tailândia. Além dessa, as da Adidas são bem difíceis de achar e, em geral, são as mais caras.
ARILDE - Foi uma camisa azul, da Adidas, do comecinho dos anos 1980. Essa camisa é bem rara, e eu a ganhei como “doação” de uma amiga, depois de muito pedir e insistir – por mais de seis meses (risos).

Réplica da camisa vermelha de 1962, usada pelo Bahia numa tour europeia (Foto: camisadobahia.blogspot.com)
ESQUADRÃO INTERATIVO – Navegando pelo blog, vi uma camisa que achei particularmente bonita: vermelha com detalhes azuis, usada pelo time em um torneio internacional, em 1962. Esta é a maior relíquia da coleção de vocês?
RUY - Na verdade, aquela é uma réplica feita por dois outros colecionadores nossos amigos, Alexandre Teixeira e Duda Sampaio. Uma original daquela seria praticamente impossível, visto que só foi usada em seis jogos e na década de 60.
ARILDE - Uma réplica perfeita, diga-se de passagem. No meu acervo, a maior relíquia é uma peça dos anos 70, herdada de meu saudoso pai.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Com qual camisa do Bahia vocês viveram suas maiores emoções esportivas?
RUY - Na fase final da Copa União de 1988, quando o Bahia se sagrou bicampeão brasileiro. Assiti a todos os jogos com uma camisa Replay que comprei para essa fase. Tenho esta até hoje.
ARILDE - Com a primeira camisa que eu comprei: a branca, de 1999.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Há alguma camisa do Bahia de que vocês não gostem (por design ou por lembrar um momento triste que seja)?
RUY - Particularmente, não gosto das camisas da Replay por causa da precariedade do acabamento. O o material do tecido era pobre e em algumas até a marca vinha numa “caixa” costurada na camisa.
ARILDE - Olha, é difícil não gostar de alguma camisa do clube do coração. Seria o mesmo que perguntar a um pai de qual filho ele não gosta. Mas, deixando a emoção de lado e usando a razão, acho as camisas da época da Replay (começo dos anos 1990) as mais mal feitas e mal concebidas, pois elas eram atrasadas para a época. No que diz respeito a design, aquela com grossas listras diagonais, de 1998/99, seria, na minha opinião, a mais estranha.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Para vocês, qual jogador mais soube honrar a camisa do Bahia?
RUY - Vários! Eliseu, Fito, Douglas, Dadá Maravilha, Beijoca, Osni, Roberto Rebouças, enfim, tantos. Difícil é citar um recente, de meados de 90 para cá.
ARILDE - Infelizmente, eu não vivi a época em que os jogadores jogavam verdadeiramente por amor à camisa. Mas a partir do momento em que comecei a me entender como torcedor, vi a equipe campeã de 1988 como um grupo que soube honrar a camisa tricolor.
ESQUADRÃO INTERATIVO – E aquele que só fez desrespeitá-la?
RUY - Não citaria um especificamente, mas poderíamos esquecer perfeitamente do time de 2003. Além de rebaixado para a Segundona, tomou 7×0 do Cruzeiro, na despedida da série A.
ARILDE - Também sem citar nomes em especial, tenho plena convicção que os grupos que rebaixaram o Bahia pra Série B, em 2003, e pra Série C, em 2005, foram os que mais desonraram, não só a camisa, mas a instituição Esporte Clube Bahia, bem como a sua imensa e fiel torcida, por protagonizarem os maiores vexames da história tricolor.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Fora as camisas, vocês colecionam mais materiais sobre o Bahia – flâmulas, posters, recortes de jornal etc?
RUY - Tenho algumas peças: luvas de goleiro, revistas, livros e até um folder de apresentação de um jogo contra o Chelsea, em Londres de 1957.
ARILDE - Sim, em geral tudo que diz respeito ao Bahia eu guardo. Tenho guardadas revistas, livros, bottons, chaveiros, brindes etc. Em especial, cito dois folders (ou “programas de jogo”) de duas partidas que o Bahia fez numa excursão à Europa em 1957: contra o Chelsea e contra o Brentford, originais e muito conservados. Tenho também uma página de um álbum de figurinhas de 1954, com os jogadores do Bahia.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Patrocínio na camisa: mal necessário ou ferramenta para associar marcas (a do clube com a do patrocinador)?
RUY - Acho impossível não os ter, mas acho que poderiam ter um tamanho que não descaracterizasse as camisas, e respeitando as cores do clube. Lembro de quando a Coca-Cola patrocinou quase todos os times da Copa União e o único time que exigiu trocar as cores do patrocínio estampado foi o Gremio: saíram o vermelho e o branco do rival Internacional e entraram o preto e o branco.
ARILDE - Mal necessário. Nada mais constrangedor que ver uma marca esdrúxula e enorme estampada na sua camisa. Se fossem discretas, tudo bem. Mas além de grandes, já tomaram a camisa toda: ombros, mangas, peito, costas, axilas, etc. De um símbolo do clube, a camisa passou a ser um outdoor ambulante, uma moeda de troca.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Vocês acham que a camisa é um meio válido para passar mensagens referentes ao clubes – campanhas de associação, por exemplo?
RUY - Não vejo mal algum desde que não encham as camisas com essas mensagens.
ARILDE - É válido, sim, só não sei se seria o meio mais eficiente.
ESQUADRÃO INTERATIVO – O que vocês acham dos modelos de terceira camisa que não seguem as cores do clube?
RUY - Acho fantásticas e às vezes caem tanto no gosto da torcida que são quase mais populares que as tradicionais. Acho interessante quando usam uma cor diferente, mas colocam detalhes da cor do clube, para manter alguma identificação cores tradicionais.
ARILDE - Sempre fui defensor dessa idéia. Os terceiros uniformes, por serem alternativos, poderiam inovar um pouco mais, já que as cores tradicionais do clube já estampam os dois primeiros uniformes. Adoraria ver o Bahia com uma camisa verde ou laranja, por exemplo. O problema é que o torcedor brasileiro, em especial o do Bahia, é muito conservador neste aspecto e não vê com bons olhos essas inovações.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Fora o rubro-negro, quais outras cores ou combinações jamais poderiam aparecer num terceiro uniforme do Bahia?
RUY - Não tenho restrições, mas acho que daria para fazer tanta coisa com as cores do Bahia que preferia que explorassem um pouco mais o azul, vermelho e branco.
ARILDE - Eu, particularmente, não tenho restrições.
ESQUADRÃO INTERATIVO – A camisa é um dos maiores patrimônios de um clube e o blog de vocês é um autêntico museu virtual desta parte da história do Bahia. Vocês acham que o Bahia tem cuidado bem de sua própria memorabília?
RUY - Não. O Bahia não tem um museu, o torcedor não tem acesso aos troféus, faixas, camisas e a documentos históricos. Depois de conhecer os museus do Real Madrid, Boca Juniors e, principalmente, o do Barcelona, percebi quantos anos estamos atrasados na preservação da história do clube. Para se ter uma idéia, li recentemente que o estádio do Barcelona, o Camp Nou, é o segundo ponto mais visitado da cidade, perdendo apenas para a Sagrada Família. A visita custa aproximadamente 17 euros, para estádio, loja e museu. É uma receita alternativa fantástica.
ARILDE - Infelizmente, não. O clube não tem e/ou não faz nada para preservar sua memória. Pra você ter idéia, na época da concepção dos modelos retrôs alusivos aos títulos nacionais de 1959 e 1988, por exemplo, o clube fez uma campanha no site oficial pedindo a colaboração de torcedores, para que estes “emprestassem” camisas originais daqueles anos para serem usados como modelo. Ou seja, o clube não guardou sequer uma camisa de suas duas maiores conquistas. Não temos um museu, não temos um memorial, nada. Iniciativas como estas estão partindo da torcida. O blog “Camisa do Bahia” é o maior exemplo disso.

Marketing do Bahia lançou a camisa "Vamos Subir Esquadrão" para a reta final da Série B 2010 (Foto: esporteclubebahia.com.br)
ESQUADRÃO INTERATIVO – E o Bahia: volta ou não volta para a Série A, em 2010?
RUY - Espero que sim. Pela primeira vez desde que caiu da Série A o Bahia tem um time competitivo. Os jogadores vêm se empenhando, jogando realmente para ganhar. A torcida tem feito sua parte e lotado Pituaçu. Se tudo correr bem, acho que voltaremos para a elite.
ARILDE - Olha, devido aos últimos anos sendo calejado pelas péssimas campanhas, eu sou meio cético pra dizer agora que o Bahia sobe. Mas o time está empolgando e tá dando esperanças de que “agora vai!” (risos).
ESQUADRÃO INTERATIVO – À parte a fase final da Série C de 2007, desde a primeira queda para a Segunda Divisão (em 1997) o Bahia foi marcado por uma série de tropeços nos momentos decisivos. Dá para explicar o porquê?
RUY - Consequência, principalmente de décadas de más administrações. O Bahia viveu duas verdadeiras ditaduras, administrações centralizadoras que pensavam apenas no dia seguinte e não no longo prazo. O resultado foi a decadência financeira, perda da credibilidade no mercado no momento de contratar jogadores, redução do investimento nas divisões de base e péssima manutenção do centro de treinamento – dentre outras coisas.
ARILDE - Foi uma série de fatores, um efeito dominó. Por isso não dá pra especificar um motivo em especial. Mas tudo começou com um primeiro passo: más administrações, ano após ano, numa bola de neve que só fez crescer e culminar com o pior momento dos quase 80 anos do clube.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Vocês acham que esses últimos anos longe da elite nacional mudaram, de alguma forma, a relação do torcedor com o clube?
RUY – Embora a paixão do torcedor não tenha sequer sido abalada, a minha impressão é que estamos deixando de renovar a torcida. Para uma criança começar a torcer por um time é preciso vê-lo vencer, ter ídolos. São duas coisas longe da realidade do Bahia há anos.
ARILDE - Da parte do torcedor, não. A torcida continua ainda mais apaixonada, não é à toa que em 2007, disputando a Série C, obtivemos a melhor média de público das 3 divisões nacionais da época. O problema tem sido a renovação: na última década a torcida do rival cresceu muito e a nossa praticamente estagnou, muito embora ainda sejamos a maior do estado e do Nordeste.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Há quatro temporadas não acontece um BaVi nacional. O último foi disputado em 2006, na Série C. Qual foi a sensação de ver um dos maiores clássicos do Nordeste brasileiro ser disputado em uma divisão tão modesta?
RUY - Profunda decepção. Bahia, Sport, Santa Cruz, Fortaleza etc não podem ficar fora da elite do futebol brasileiro. Têm torcidas apaixonadas e que lotam os estádios. Ver os clássicos nordestinos nas divisões inferiores é muito triste.
ARILDE - É triste ver um dos maiores clássicos do país, não só do Nordeste, sendo disputado no porão do futebol nacional (não desmerecendo a Série C, claro).
ESQUADRÃO INTERATIVO – Já dá para chamar o estádio de Pituaçu de “casa” ou vocês ainda sentem falta da Fonte Nova?
RUY - Nem de longe! Pituaçu está lindo,bem cuidado, mas a casa do Bahia é a Fonte Nova. Foi lá que o Bahia ganhou seus títulos. Até o nosso comandante da campanha vencedora de 1988, o grande Evaristo de Macedo, disse em recente entrevista que a mística da Fonte Nova se mistura com a história do tricolor.
ARILDE - Sou freqüentador do estádio, sempre que posso estou nos jogos do tricolor, mas ainda não vi aquela empatia, aquela “química”, entre o estádio e a torcida, tal como era com a velha Fonte Nova. A Fonte foi palco de grandes conquistas e lá o Bahia era quase imbatível nos seus bons tempos. Sei lá, o Bahia ainda não se achou em Pituaçu.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Nos últimos anos, o Bahia tem sido muito mal-tratado por suas administrações. À distância, tem-se a impressão de que, em 2010, o clube conseguiu se organizar melhor. É realmente assim ou vocês acham que a boa campanha na Série B está escondendo alguns problemas?
RUY - As melhoras estruturais são notáveis. O Fazendão tem sido melhorado, fala-se em um novo e moderno CT, o marketing começa a dar o ar da graça; mas a prometida democratização com renovação do estatuto e conseqüente eleição direta para presidente ainda são promessas. Estamos aguardando.
ARILDE - Olha, sejamos justos: a atual administração tem feito muita coisa boa. À parte as melhorias na estrutura física, o marketing está trabalhando a contento, o time “tá na mídia” e temos um profissional do ramo cuidando do departamento de futebol. Os resultados, ainda que não totalmente satisfatórios, estão aparecendo. O principal, porém, ainda falta: a democratização do clube, a abertura do Bahia para sua torcida, o torcedor quer escolher seu presidente, e infelizmente isso ainda não é possível. Nem só de estrutura física vive um grande time. E enquanto isso não for feito, é como se nada tivesse acontecido.
ESQUADRÃO INTERATIVO – Deixem um recado para os nossos leitores:
RUY - Primeiro, queria agradecer a oportunidade de falar sobre o Bahia e sobre a nossa coleção. Espero poder ajudar a valorizar a história do Bahia e que todos os apaixonados por camisas de futebol possam desfrutar do nosso trabalho.
ARILDE - Continuem prestigiando o Esquadrão Interativo, pois com certeza é um dos melhores sites sobre futebol da internet brasileira. E pra quem ainda está naquela dúvida em colecionar camisas, eu digo: se jogue nesse hobby, pois é muito gostoso, faz-se muitos amigos e, sabendo onde e como comprar, não é caro, como muitos pensam. Um abraço a todos.




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