André Henning

UM NOVO DESAFIO PELA FRENTE

Tirei o dia para pensar na vida. Geralmente, faço isso quando corro. Principalmente nos longões, reservo um pedaço dele para tirar os fones de ouvido, dar um tempo nas notícias e fico pensando na vida. Só eu e meu par de tênis. O ano de 2011 promete ser de muitos desafios – pessoais, profissionais e, a partir de agora, também na corrida.

É verdade que eu tinha prometido que, enquanto morasse no Rio de Janeiro, não iria me meter a fazer uma maratona de novo no primeiro semestre. Sofri muito para treinar para Paris em 2010. Longos com início às 3:30 da manhã, treinos no meio da madrugada, tudo para evitar o calor. Mas não tem jeito. O bichinho das maratonas quando morde, é pra valer.

Acabo de decidir que farei novamente uma maratona no primeiro semestre. E mais! Farei uma também no segundo. O ano de 2011 será de dobradinha na distância. Vou começar a pesquisar quais irei correr – parte prazerosa, mas também difícil em virtude do meu trabalho nos fins-de-semana. Tudo tem que ser planejado com muita calma. Algumas provas têm sido estudadas – Zurique em abril? Quem sabe, Porto Alegre em maio? Será que vai ser em maio de novo? Para o segundo semestre, vamos de Berlim? Claro que vou tentar NY na loteria das vagas, mas vai que não dá… E a temida Maratona de SP? Pode ser, uai…

Os planos estão só começando. Vem aí muitos meses de muitos treinos. Objetivo? Se não for pedir demais, um tempo abaixo de 3h55min, mas deixa isso pra depois…

André Henning

O GRANDE SONHO DE UM CORREDOR

É o meu, pelo menos. E de muitos outros amigos corredores. A São Silvestre é fantástica, tem o simbolismo de ser no último dia do ano, o coração está mais sensível e a multidão invadindo as ruas de São Paulo para celebrar a virada de um novo ano, a tornam a mais desejada das provas nacionais. Paris tem seu charme, Berlim e Chicago trazem o sonho das maratonas mais rápidas de sua vida e Boston é o atestado de que você não é um ser humano normal. Mas, cá entre nós, a Maratona de Nova York é mesmo a grande prova do mundo da corrida.

Uma das maratonas mais difíceis do mundo, é verdade. Não apenas pelo nível técnico, com todas as subidas de suas imensas pontes e uma temperatura que pode variar entre muito frio e muito calor – normalmente, muito frio. Para correr Nova York, além de estar bem preparado para os 42 quilômetros (mais 195 metros), você também precisa estar disposto a ter paciência.

Primeiro, pela inscrição. Não é fácil conseguir vaga para correr Nova York. Sim, você pode pagar um dos pacotes nas operadoras licenciadas e ter vaga garantida. Mas para os simples mortais, que nem eu, é preciso passar pela “loteria” das inscrições. Gente do mundo inteiro tenta se inscrever. Poucos conseguem. São mais de 100 mil inscrições para cerca de 40 mil vagas – um terço delas reservadas para moradores da cidade de Nova York, outro terço para norte-americanos de outras cidades e o restante para os corredores do mundo inteiro. A boa notícia é que, quando se tenta três vezes seguidas e seu pedido é negado, automaticamente na maratona seguinte você será aceito. (Estou na minha segunda tentativa para 2011, já fracassei para 2010).

E a outra razão é que a largada da maratona é extremamente complicada. É preciso acordar cedo para pegar os ônibus que vão até o local da saída (Staten Island) e esperar muito antes do tiro de canhão que dispara os corredores pela cidade. Muita gente chega a esperar até 5 horas para começar a correr, uma loucura. Até os primeiros acordes de “New York, New York” soarem pelos alto-falantes, vai-se uma eternidade…

Mas não há um só cidadão que tenha completado a prova que diga que o sacrifício não tenha valido. Correr Nova York é um sonho. Uma das provas, senão “a” prova com o menor percentual de desistência entre todas do planeta – números acima de 90%. Dizem que o povo da cidade, que toma conta das ruas, não deixa o corredor desistir. Não há como parar de correr no embalo daquela torcida. O povo te empurra, você vai no embalo. Parar não faz parte dos planos.

Imagine, então, ganhar Nova York? Duas vezes? Marílson Gomes dos Santos, nosso grande corredor brasileiro, já ganhou a prova duas vezes – em 2006 e 2008. Para 2010, vai em busca do tri. Boa sorte, Marílson! (E que minha vaga venha logo, quem sabe em 2011 estarei escrevendo essas linhas direto de NY, já pensou?)

André Henning

CRUZANDO A PONTE


Está no jornal O Globo de hoje. Vem aí, em abril de 2011, a Meia-Maratona da Ponte. Começando em Niteroi, vai atravessar os pouco mais de 13 km de uma das pontes mais famosas do mundo, e desembarcar no Rio de Janeiro, cruzando a linha final no Parque do Flamengo. Um espetáculo!

Claro que será uma batalha logística para conseguir essa proeza. Já se fala em limitar o número de participantes, pois apenas duas faixas da ponte poderão ser bloqueadas. A ponte Rio-Niteroi é a única maneira razoável de se ir de uma cidade a outra de carro. Paralisar completamente o fluxo de veículos seria causar um enorme transtorno aos que se utilizam do percurso.

O horário também será adequado. Provavelmente, com largada nas primeiras horas do dia, mais cedo do que os cariocas estão acostumados (e que a TV algumas vezes exige). Nós, que sofremos com o sol bombando e nos castigando, agradecemos! Quanto mais cedo, melhor!

Chegar ao lado de lá (para os que não são de Niteroi, evidentemente) para a largada será outro problema. O ideal, nesses casos, é ir de táxi para a largada. Para atravessar a ponte, no entanto, ficaria muito caro. Os organizadores falam em barcas especiais para os corredores atravessarem a Baía de Guanabara. Perfeito! Tomara que dê certo mesmo.

E, claro, o desgaste físico. A ponte tem um desnível bem considerável. Subí-la não será fácil. Preparação vai ter que levar em consideração a elevação, principalmente no vão central. Mas tenho certeza que vai valer a pena. Taí uma prova imperdível… Ah, a corrida está prevista para abril do ano que vem!

André Henning

RECOMEÇAR É BOM

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Há quanto tempo não aparecia por aqui. Peço desculpas aos treze leitores do blog que ficaram sem posts durante as últimas semanas. Claro que há uma explicação. Não razoável, mas há…

A Copa do Mundo acabou exigindo que meu tempo fosse dedicado quase que exclusivamente ao videoblog (que é só sobre futebol) e ao novo filho que nasceu na competição – o podcast. Juntando os três jogos por dia, as inúmeras horas ao vivo na TV e alguns minutos para almoçar, jantar e correr (sim, eu corri na Copa!), as 4 horas que sobravam diariamente eram para dormir. Encaixei alguns banhos, para falar a verdade.

Depois da Copa, tirei 15 dias para descansar. A vida esteve bem dura no Ceará, na Bahia e a preguiça não ajudou muito. Até corri no Nordeste, mas não muito. Sabia que os peixes fritos e as macaxeiras (ou aipim ou mandioca) me fariam pagar um preço, era inevitável. E sobrou para a balança. Quase 4kg do dia que saí para a África para o dia da volta ao trabalho. Nada que eu não perca nas próximas semanas, mas enquanto o mostrador não bater nos 77, 78kg não irei sossegar.

Recomeçar é bom. Na corrida (meu treinador Mário Mello fez uma planilha de recuperação para agosto), no trabalho, na vida. É nessa que eu vou. Vamos nessa!

André Henning

UM VERDADEIRO SONHO DE CONSUMO

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Fazia muito tempo que não rolava esse encontro. Desde o começo das minhas corridas. Na verdade, desde o tempo das pré-corridas, quando comecei a me preparar para virar um modesto corredor. O ano era 2005 e o local era o bairro do Sumaré. Foi lá, numa esteira Movement, que comecei a dar meus primeiros passos com um tênis de corrida. Primeiro, caminhando apenas. Depois, alternando muita caminhada com pouca corrida. Aos poucos, nivelando em 50% do tempo correndo e a outra metade caminhando forte. A proporção foi diminuindo até que o professor (grande Tiago!) ordenou que eu fosse à rua. Desde então, nunca mais tinha pisado numa esteira.

Até ontem. Ao chegar em Istambul, na minha pausa no meio da viagem para a África do Sul, a chuva castigava a cidade. A previsão para os dias seguintes era a mesma: mais água. Não poderia ficar tanto tempo parado. Benditos sejam os hotéis com esteiras. Não tive dúvida. Para entrar no fuso horário, fui logo gastar energias nela. O sono, com certeza, viria mais fácil depois. E veio. Foram 45 minutos tão bons (mesmo depois de quase 13hs de voo e 20hs entre “casas”) que hoje voltei para mais. E amanhã, antes de partir para Joanesburgo, mais uma sessão com a garotinha.

Já tinha essa vontade, agora aumentou. Não sinto muito a necessidade de uma esteira nos dias normais. Tenho tempo (e disposição) para acordar cedo e sair para correr na rua. O problema é quando a rotina dá uma desajustada. No auge do verão, por exemplo, seria ótimo poder fugir do calor infernal do Rio de Janeiro sem precisar acordar às 4 da manhã para colocar o “pisante”. Sinto tanta falta da corrida que tô começando a achar que vale o investimento. Sei que as boas são caras. Dizem que as academias que renovam seus estoques fazem bons descontos. Não adianta comprar uma porcaria que vai ferrar o joelho. Alguém sabe de alguma dica? Será bem-vinda.

André Henning

O LOUCO QUE CORRE OUVINDO NOTÍCIAS

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Já vou dizer logo de cara: o louco do título tem nome. André Henning. Sim, eu corro ouvindo notícias, comentários, etc… Música, só nas corridas longas quando os assuntos em questão no noticiário já não são mais absorvidos. Geralmente, na última volta de um “longão” e só.

Parte dessa esquisitice é hereditária. Cresci ouvindo rádio AM, a paixão do velho. Era entrar no carro e o noticiário bombar. Herdei isso. Adoro ouvir notícias. Hoje, não somos (todos nós, apaixonados pelo noticiário das rádios) mais reféns da péssima qualidade sonora do AM. Muitas rádios de notícias já têm suas programações no FM, com som melhor e mais facilidade de sintonia. E o melhor de tudo: há algum tempo, as fronteiras também não existem mais. A internet está aí, a banda larga (apesar de não tão larga assim) também e, agora, podemos ouvir rádios do mundo inteiro em casa, no trabalho e, no meu caso, no carro. Dirijo hoje pelas ruas do Rio de Janeiro, de São Paulo ou de qualquer cidade do mundo ouvindo minhas rádios prediletas – sem fronteiras. Um celular com pacote de dados, um rádio com entrada “auxiliar” e pronto. Está feita a mágica.

Essa facilidade faz com que eu possa, por exemplo, fazer minhas corridas matinais na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro, ouvindo o Jornal da Manhã da Jovem Pan AM de São Paulo ou os programas esportivos da BBC Radio 5 Live, de Londres. Perder o jogo do meu time? Não mais. Posso seguir meus compromissos normais sem ter que parar a vida para tentar sintonizar as rádios paulistanas que transmitem futebol por ondas médias ou curtas. Por um lado é triste, pois lembra muito minha infância quando, longe de São Paulo e, às vezes, até do Brasil, me esforça para conseguir ouvir as transmissões da Rádio Globo, da Record, da Bandeirantes – rádios muito fortes nesse quesito. Por outro lado, a facilidade hoje em dia é imbatível. E hoje ainda tem a vantagem de pegar o “outro lado” da notícia. O meu time vai jogar no Sul? Que tal ouvir o Pré-Jornada, da Rádio Gaúcha? É em BH? Melhor saber o que os caras da Itatiaia estão falando. O pau quebrou na Copa das Nações em Angola? Rádio de Angola nos fones de ouvido, basta um clique. Bom demais.

Claro que o investimento é necessário. O camarada tem que ter um aparelho com essas facilidades (o iPhone é imbatível, com softwares específicos das principais rádios do mundo), além de um pacote de dados com um custo de uns 70 reais. Mas para quem não tem tudo isso, o mundo não está acabado. Há à disposição hoje, muitos podcasts que fazem o serviço. Para quem não conhece, o podcast (num rápido resumo) nada mais é do que um arquivo de áudio feito por pessoas interessadas, muitas vezes profissionais da área. destinada a um público específico. Exemplo: existem podcasts feitos por corredores amadores que compartilham suas experiências, seus treinamentos, etc, para – óbviamente – pessoas que têm interesse pelo tema. Como existem para corredores, temos também para interessados em tecnologia, dinheiro, notícias, etc… Basta procurar. Grosseiramente comparando, é um blog com áudio. O camarada não vai ler, vai ouvir. Acho que assim fica mais fácil de entender. E, para facilitar sua vida (principalmente te avisando quando tem um programa novo para você ouvir), alguns programas te auxiliam.

Muitos podcasts são apenas arquivos de programas inteiros que já foram ao ar em rádios reais. A CBN, por exemplo, acho que é a principal no Brasil nesse ramo. Você consegue, acessando o site da rádio, baixar os programas que você, por um acaso, tenha perdido quando foi ao ar. Ou apenas os comentários que você mais gosta de ouvir. Outros são feitos especificamente para o “ambiente” da internet. O jornal inglês The Guardian (que foi o primeiro a utilizar o termo “podcast”) é um exemplo. E um dos meus preferidos.

Dito isso, sempre recebo pedidos de dicas para podcasts esportivos. Vou colocar alguns aí embaixo com um rápido resumo de cada um deles. A compreensão do inglês é necessária para os gringos, claro. E pode ter certeza. Quem se dispuser a começar a acompanhar esses programetes, não vai se arrepender. Inclusive, quando falamos de futebol brasileiro. Vira e mexe, o Brasil é tema de um deles e é impressionante o nível de conhecimento que os principais comentaristas têm sobre o nosso país. Mais que muitos da gente. Aproveitem.

- Football Weekly (do Guardian) – duração de uns 40 minutos, fala muito do futebol na Inglaterra, mas não se esquece dos principais campeonatos do mundo. Mantém um correspondente na Espanha que sabe muito. O apresentador, James Richardson, particularmente tem interesse pelo futebol italiano e não deixa faltar informações da bota. Eventualmente, recebe um alemão que deita e rola sobre a Bundesliga e o correspondente do jornal O Globo em Londres, Fernando Duarte, que fala do futebol no Brasil. Sempre atualizado às segundas e quintas. No momento, está parado, mas terá uma edição especial (deverá ser diária) durante a Copa do Mundo. Imperdível.

- Football Daily (da BBC 5 Live) – duração variada, faz um resumo do dia esportivo, principalmente na Inglaterra. Pode ter uma entrevista especial ou até mesmo narrações dos gols da rodada. Geralmente, tem algum trecho de um programa que foi ao ar na rádio (que é uma mescla de notícias e esportes) durante o dia. Tem acompanhado a seleção inglesa na preparação para a Copa. Bom e rápido. Se tiver tempo para ouvir um só durante o dia, escolha esse. Não tem mais do que 20 minutos.

- World Football (da BBC World) – programa de meia-hora, que vai ao ar na rádio mundial da BBC. Aborda assuntos interessantes (2 ou 3 por edição), com profundidade. Pode falar das apostas de futebol na Ásia, do legado da Euro 2004 em Portugal ou da preparação do Brasil para a Copa do Mundo de 2014. Fala com autoridade, geralmente com correspondentes nos locais. É apresentado por Alan Green, experiente narrador da BBC Radio. Atualizado às quintas. Esse programa é muito bom para termos compreensão da influência que o futebol tem no mundo inteiro.

- World Football Phone-In (da BBC 5 Live) – esse é dos mais legais. Mais demorados também, tem que ter paciência para ouvir. Na maioria das edições, tem por volta de uma hora de duração. É um trecho do programa que vai ao ar na rádio inglesa (chamado Up All Night) nas madrugadas de sexta para sábado. Muitas vezes, ouço o programa inteiro (tem entre 2 e 3 horas de duração) ao vivo. Essa é a edição mundial do Phone-In, que nada mais é que a velha fórmula de  ouvintes entrando no ar e mandando perguntas sobre o futebol no mundo – tem a versão local também, só sobre futebol inglês. Três experts respondem aos ouvintes – um americano (que fala diretamente dos EUA e é muito engraçado), o inglês Tim Vickery (também muito bem-humorado) responde do futebol latino-americano e alguém que fica nos estúdios na Inglaterra fala sobre o futebol na Europa. O âncora, Dotun Adebayo, é ótimo. A participação de Tim Vickery (que já participou algumas vezes do Jogando em Casa) é ótima também. Morador do Rio de Janeiro há muitos anos, conhece muito, mas muito mesmo o futebol brasileiro, argentino, chileno, etc… As perguntas dos ouvintes também chamam a atenção. Fogem do trivial “quem vai ganhar tal jogo” e abordam temas interessantes. Para quem tem tempo de ouvir, vale. Demais.

- em português, temos os da CBN. O CBN Esporte Clube, programa do Juca Kfouri, que vai ao ar de segunda a sexta às 20hs, é o maior deles. Ouço só as manchetes e, se tem algo de interessante, procuro. Não tenho saco de ouvir mais do que 5 minutos. Não sou fã. Tem também o Quatro em Campo, que vai ao ar no meio da tarde e tem um participante no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Belo Horizonte. Esse é chato, tem que ter saco. Cheio de piadas internas e bairrismos. A CBN, infelizmente, não tem um setor específico para cuidar dos podcasts. Por isso, vão ao ar com comerciais, informações de trânsito, etc… Nada é editado. Para quem ouve por podcast, fica sem sentido. Mas é um começo, temos que admitir.

E, claro, temos alguns companheiros de Esporte Interativo que também aderiram ao formato. O Luan Knaya faz um de NBA há algum tempo e você pode conferir no blog dele. Bem legal. O Rafael Araldi também se aventura. Vale conferir.

Bom, é isso. Sou louco ou não sou? Correr ouvindo notícias??? Hahaha… É o que chamo de aproveitar o tempo e otimizá-lo!

PS: Aceito sugestões de outros podcasts! Mandem!

André Henning

UMA LEITURA QUE VALE A PENA

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Galera, tenho demorado a postar aqui. Verdade. O ritmo das últimas semanas ficou forte e, entre perder um treino e escrever no blog, tenho optado pelo pé na massa, hehe… Esse período pré-Copa do Mundo é delicado, tem muita coisa para deixar amarrada por aqui (serão quase dois meses afastado) e o dia parece que passa a ter 13, 14 horas apenas. Aliás, em breve (não vou demorar, prometo!), volto para falarmos de corridas nas viagens…

Fiz um pacto comigo mesmo nos últimos meses. Sou um compulsivo comprador de livros. É serio. Não posso entrar em livrarias que acabo comprando 2 ou 3 livros que, claro, não irei ler por absoluta falta de tempo. Resultado: eles iam empilhando naquele móvel que fica ao lado da cama e que eu esqueci o nome agora. Nas férias, conseguia ler um ou dois, no máximo (férias com filho pequeno não são como antigamente!). Como sempre viajo de avião, pelo menos uma vez por semana faço uma ponte-aérea ida e volta para SP, resolvi que só iria ler livros a bordo das aeronaves. Enquanto espero os voos, jornais, internet, telefone, pode ser o que for. Entrou no avião, ou cochilo ou livro. Consegui dar uma boa esvaziada na pilha de livros, mas ainda estão incomodando…

Alguns, obviamente, pulam para o topo da fila. Depende do momento. Alguns livros de corrida estão lá e os intercalo com outros assuntos e temas. Mas esse pulou direto da caixinha do correio para a mochila. Não esperei entrar no avião para começar esse. Estava muito ansioso para ler a história do desafio do Portuga. Primeiro, que foi escrito por um amigo. Segundo, que o Serginho é corredor como a gente (quer dizer, é bem mais rápido que a maioria de nós, humanos normais) e escreve bem demais, de uma maneira leve, te envolve na historia como os grandes fazem. Adoro o blog, sou leitor assíduo da Runner´s e da Placar. E também estava, claro, muito curioso para saber mais da historia desse desafio maluco que já tinha virado post no blog e matéria na revista.

Resumindo: um figuraça (o Portuga), integrante de um famoso grupo de corridas de São Paulo, correu a maratona de sua vida, cravou o espetacular tempo de 2hs43min50seg e passou a ser o cara mais insuportável do planeta. Daqueles que parecem o seu vizinho que não espera o jogo da volta para comemorar a classificação do seu maior rival. Ou que no começo do longo campeonato por pontos corridos manda a velha: “esse ano é nosso, não tem jeito”. Um mala. Vivia sacaneando a turma nos treinos que reuniam a galera. Até que os treinadores encheram o saco. Escolheram 3 velozes do grupo, 3 caras que poderiam quebrar a incrível marca do Portuga para acabar com a raça dele e fizeram uma aposta. Um deles bateria o tempo. Seriam detalhadamente preparados para quebrarem a marca do pobre Portuga. Lelo, Guto e Tomás toparam a parada, o Portuga ficou lisonjeado e está aí o livro.

Uma leitura deliciosa, que te coloca nos treinos, na pele dos caras, nas maratonas e nos momentos – muitos deles trágicos – que envolvem o Desafio do Portuga. Imperdível.

André Henning

CORRER SEM CHANCES DE VENCER

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Para nós, amadores, é mais fácil. Já escrevi sobre isso aqui: cada um tem o seu objetivo, a sua meta, quando começa a correr. À exceção dos malucos, todos nós corremos em busca de algo que não seja a vitória, o cruzar a linha de chegada em primeiro lugar. Todos sabemos do nosso limite e nos adaptamos a ele. Mas imagino que isso não seja fácil para um atleta profissional.

Pois Marílson Gomes dos Santos teve que fazer isso no domingo quando correu a Maratona de Londres. Numa das provas mais rápidas do mundo, nosso ídolo brasileiro, duas vezes campeão na difícil Nova York, não tinha chances de vitória em terras anglo-saxônicas. Correu como eu, como você, como tantos outros: para melhorar sua própria marca. O duelo com os etíopes e quenianos pela vitória seria impossível – muitos tinham maratonas abaixo das 2h06min. Marílson é um corredor de provas mais difíceis, usa a cabeça e nessa combinação de força e estrategia, luta pela vitória nas mais complicadas. Nas velozes, tem que dar a vez.

O plano seria o da “prova individual”, sem levar em conta o pelotão de líderes. Entre 10 e 12 corredores partiriam na frente e Marílson ficaria num segundo pelotão, fazendo sua corrida. Quem fosse “quebrando” seria superado pelo nosso bravo corredor. E assim foi. Muitos diminuíram muito o ritmo na feroz briga pela liderança da prova. Marílson foi ganhando posições e acabou na sexta colocação. Terminou melhor do que todo mundo esperava. Infelizmente, não quebrou seu recorde pessoal (que é de 2h08min37seg em Londres, no ano de 2007). Passou a fita poucos segundos depois da meta, mas valeu pela grande prova e pelo ótimo resultado. Parabéns mais uma vez, grande Marílson!

André Henning

O MEDO DE UMA CONTUSÃO MAIS GRAVE

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Sou um privilegiado. Até hoje não tive nenhuma contusão séria. Nada que tenha me impedido de correr por um ou dois dias, no máximo. Lembro que, às vésperas de minha primeira meia-maratona, em abril de 2006, sentia dores horríveis no pé, mas com uma ajuda milagrosa de uma injeção, corri, nada senti e nada mais voltei a sentir. Depois da minha primeira maratona, sofri um pouco com dores na sola do pé também, mas sejamos honestos – tudo doía, não apenas os pés…

Agora, após a Maratona de Paris, minha terceira, me sentia muito bem. Respeitei uma semana de descanso, apesar de na quarta-feira seguinte da prova já estar morrendo de dar um trote. No entanto, na última segunda-feira, quando finalmente corri 10K iniciando meu trabalho de recuperação, senti um incômodo no púbis. Essa dor misteriosa, que os leigos não conhecem direito, e sempre ouvem falar, principalmente no meio do futebol. Opa! Fiquei tenso. Que dor é essa? Não estou conseguindo andar direito!

Uma conversa com meu médico tirou um pouco minha preocupação. A sobrecarga foi, sem dúvida, a causa principal dessa dorzinha. Fui medicado, diminui em 10-15% a carga (já leve) de treinamentos da semana e vou ficar de olho. Seja lá o que for, o melhor é tratar agora no início. Se tiver que parar um pouco agora para não sofrer depois, que seja. Vai ser ruim ficar sem correr por um tempo, vai? Mas se essa for a indicação médica, que seja. Tomara que não seja nada…

André Henning

UM DOMINGO MUITO ESPECIAL

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Porto Alegre, Londres ou Paris?

Foi em outubro do ano passado que nasceu a ideia de correr a maratona mais charmosa do planeta – Paris. Terminei a prova de Chicago um pouco decepcionado por não ter melhorado meu tempo (era de 4h08 no Rio, terminei a norte-americana em 4h09). Decidi que faria um treinamento mais focado e que quebraria a barreira do “sub-4hs” em 2010. Como teremos uma Copa do Mundo pela frente, seria muito complicado me preparar para uma prova de segundo semestre – mais de um mês na África sabe-se lá se conseguindo correr ou não, depois uns dias de férias… Melhor garantir logo no primeiro semestre…

Já expliquei aqui no blog as complicações de se correr maratonas conciliando com meu tipo de  trabalho. Por estar sempre narrando nos sábados e domingos, os treinamentos são mais solitários e a prova em si é mais complicada. Já fiz muita prova chegando apenas no dia com algum amigo pegando meu kit, mas para uma maratona não daria. O lado positivo é que os campeonatos que nós transmitimos já tinham suas tabelas todas definidas, seria mais fácil escolher um fim-de-semana sem clássicos. No entanto, esses mesmos campeonatos estariam nas retas finais e, por serem todos de pontos corridos, mesmo sem ter um grande clássico poderíamos ter, quem sabe, o jogo do título. O jeito foi planejar e rezar para dar tudo certo.

Porto Alegre, Londres ou Paris – uma delas seria minha maratona de 2010. Pela ordem de preferência, inclusive. Porto Alegre seria a bola de segurança: perto, barata, com gente disponível para pegar meu kit caso tivesse que narrar no sábado, voos com boa freqüência do Rio de Janeiro, volta tranqüila para casa e, pelo que sei, uma agradável prova para se correr. Data? Dia 23 de maio, dia seguinte da decisão da Liga dos Campeões. Naquela altura, a chance era razoável de estar em Madrid não em Porto Alegre nesse dia. Porto Alegre ficou para outro ano. Opção 2: Londres. Data? Final de abril. Hmmm, complicado, hein? Campeonatos muito próximos de suas decisões, mas pelo menos estaria perto desse jogo decisivo. O máximo que poderia acontecer seria a decisão ser do Italiano ou do Alemão, mas até aí nada que um voo de duas horas não resolvesse. Na pior das hipóteses, iria a Londres, pegaria meu kit, viajaria para narrar o jogo e voltaria a tempo. Resolvi apostar! Dias depois, inscrição negada. A maratona responsável pelos 195 metros depois dos 42 km ficou para outro ano também. Então, amigo, por pura falta de opção, vamos à Paris! Data? Dia 11 de abril, sem clássicos, sem jogo de Liga na terça seguinte (poderia voltar sem muita pressa ao Brasil), inscrição aceita, tudo funcionando. Show!

Já falei aqui também que Paris não é minha cidade preferida, longe disso. E cada vez que venho consolido essa minha opinião. Mas para correr uma maratona pelos pontos turísticos da cidade, acho que valeria bem a pena, né? E como eu disse, essa maratona não era para fazer passeio, era para bater minha marca e virar um maratonista sub-4hs. Portanto, poderia ser na Disney que não sairia do hotel para muita coisa nos dias anteriores à corrida.

O detalhe é que tudo isso que eu planejava corria um baita risco de virar do avesso se meu chefe não concordasse. Sim, quando decide-se correr uma maratona, não basta você topar o desafio. Sua família, seus amigos e até seu chefe têm que entrar na loucura, senão baubau… Sou um cara planejado, tenho bom senso e jamais pediria algo que não pudesse realmente ser topado pela chefia, pois sei do tamanho do pepino que é pedir para folgar 4 ou 5 dias seguidos incluindo um fim-de-semana, mas o risco sempre existe. Não precisei mais do que 5 minutos para receber o sinal verde, ainda mais que o chefe também foi picado pelo mosquitinho da corrida… Show! Paris, aqui vou eu!

Chega de treinar sozinho

Também já devo ter comentado por aqui que adorava fazer meus treinamentos por conta própria. Boa parte da satisfação em se tornar corredor, é também se tornar um planejador. Você passa a contabilizar quilometragem rodada, média, velocidade, até o seu tênis para a ter um “odômetro” marcando os quilômetros rodados… Mas senti que, para bater minha meta, precisaria de um treinamento de um profissional. Decidi pedir ajuda a quem conhece. Sabia que o jornalista e amigo Ricardo Capriotti (da Rádio Bandeirantes, de SP) treinava há algum tempo com alguém. Entrei em contato com ele e fui fortemente recomendado a trabalhar com o Mário Mello, da assessoria Marios Team. Não consegui falar com ele de primeira, pois estava em Nova York acompanhando um grupo que corria a maratona (pensei comigo de imediato: esse é o cara! Tá lá em NY com os alunos!), mas logo conversamos e iniciamos nosso trabalho.

Ter começado a trabalhar com o Mário foi uma decisão mais do que acertada. Essa foi na mosca. Não tanto pela diferença de treinamento em si, pois eu fazia um trabalho bem razoável sozinho, mas o apoio nos momentos de dúvida (perdi um treino, e agora?), a troca de informações sobre as dificuldades que tive nas maratonas anteriores e como corrigi-las, a entrada do frequencimetro nos meus treinos… E muitos outros detalhes. Meu treino não era de bobo, mas foi incrementado. E vários outros fatores me fizeram ter a certeza que estava no caminho correto. E o Mário, além de tudo, também é maratonista. Isso faz uma baita diferença, pois ele sabe exatamente os dramas que nós temos quando partimos para correr essa prova. Valeu, Marião!

Nunca mais no primeiro semestre

É, enquanto morar no Rio de Janeiro, vou pensar uma, duas, dez, cem vezes antes de topar correr outra maratona no primeiro semestre. Treinar no verão forte foi um sacrifício absurdo, já retratado aqui. Quantas vezes tive que acordar às 03:30, 04:00 da manhã para fazer meu longão? Tá louco. Em sã consciência, maratona no primeiro semestre nunca mais…

Misturando pessoal com profissional

A viagem que era apenas para a corrida acabou se transformando numa mini-excursão à Europa para narrar dois jogos importantes e que se mostraram históricos. Quando fui pedir minha liberação para correr Paris recebi de volta uma sugestão – que acabou se realizando – de ir alguns dias antes para narrar Manchester United e Chelsea na Inglaterra e um jogo das quartas-de-final da Liga dos Campeões, que ainda não sabíamos qual seria naquela época.

Se tivéssemos escolhido, a dedo, já sabendo de tudo o que só viemos a saber depois, tenho uma forte suspeita que teríamos optado por esses exatos dois jogos – o primeiro praticamente decidiu o Campeonato Inglês, o segundo acabou sendo o jogo histórico de Messi metendo quatro gols contra o Arsenal, no Camp Nou. Os deuses do futebol estavam do nosso lado.

Claro que a viagem que seria um pouco diferente do que tinha planejado – de cara, teria que perder o aniversário do meu filho pois no dia 1º de abril já tinha que estar lá na Inglaterra e não em SP com ele, mas isso faz parte da vida de qualquer jornalista. Sofri muito, muito mesmo por estar sozinho numa cinzenta Manchester enquanto poderia estar comemorando com ele, mas adiamos a festa para a volta e tudo seria recompensado. Faz parte. E os dias que antecederiam a prova seriam um pouco mais puxado que o normal, correndo de um lado para o outro, fazendo conexões pela Europa, carregando equipamentos… Tudo bem, seria bom para a empresa, bom para mim e a maratona seria o ponto final de uma ótima viagem profissional.

A cabeça tenta fugir

Acabou que não foi tão bem assim. Tivemos alguns problemas técnicos e nossa transmissão de Manchester não ficou 100%. A de Barcelona, nem aconteceu. Isso fez com que o foco da maratona (já completamente desviado nos dias na Inglaterra e na Espanha) se desviasse por completo. Decepções mexem com nossa cabeça, afetam nosso raciocínio, nosso descanso, nosso sono e tudo prejudica a corrida. Foi preciso uma boa dose de calma e paciência para deixar a decepção passar e dar lugar ao objetivo de Paris.

Os treinos até que aconteceram bem nesses dias. Foi ótimo, por exemplo, correr em Manchester e em Barcelona para já ir acostumando ao frio. Conheci belos parques, corri pelas ruas da Catalunha e isso rende boas historias para levarmos na memória, mas a cabeça pesou demais.

A quarta-feira foi inteirinha de tristeza. Fiquei o dia inteiro em Barcelona e saí do hotel apenas para dar uma volta ali por perto, sem ânimo para nada. A decepção da não-transmissão da véspera foi enorme. Ainda na terça à noite, fiz participações em vários programas de rádio do Brasil. Todos sabiam que eu estava lá e, depois que Messi fez historia, passei a ser “notícia” também. Mas não estava feliz, muito pelo contrário. Eu nem tinha visto o jogo com calma, para falar a verdade. Claro que vi que o argentino acabou com o Arsenal, mas minha cabeça não estava no Camp Nou ou em Barcelona. E na quarta que tirei para descansar, Messi estava por todos os lados – jornais, TVs, internet. Minha decepção só aumentava. Pensei comigo que era hora de dar um basta e meter a cara na maratona. Na quinta-feira, às 03:30 da manhã despertei, mas não para fazer um longão no calor do Rio, mas para embarcar para Paris!

Tá chegando a hora

Quem acompanha o blog já sabe de tudo que antecedeu a prova. Vamos, então, partir para o grande dia. A previsão do tempo já indicava que seria um domingo maravilhoso, de céu azul e sol brilhando intensamente. Mínima prevista de 4 graus, máxima de 15. Pelas minhas contas, teríamos uma maratona entre 7 e 12 graus. Perfeito!

Acordei 3 horas antes da prova agradecendo aos céus pelo café da manhã do hotel já estar funcionando nesse horário. Daria para, pela primeira vez, fazer uma refeição decente antes de uma maratona. Imediatamente, ao cair da cama, desci e já encontrei os primeiros companheiros de maratona do dia – alguns suecos, dois portugueses e um de nacionalidade não-identificada faziam o desjejum. Vale registrar aqui que 35% dos 40.000 inscritos eram estrangeiros – muitos italianos, ingleses e mais de 400 brasileiros. Incrível!

Pães com geleia, café forte para despertar (como se precisasse…), sucos, bolo e de volta para o quarto. É hora de… fazer o número 2. Tudo bem, eu não precisava entrar nesse nível de detalhamento, mas isso é muito importante antes de uma corrida! Tem que liberar o que está por ali, senão é batata: vai ter que se virar no meio da prova. E olha que tem gente que se vira como pode mesmo – muita gente sai correndo para o mato no meio de uma maratona. Acontece tanto que passa a ser normal nem se espantar com alguém partindo no sprint para a moita… Depois do momento de solidão, um banho rápido e vestimenta no corpo. Com tudo já preparado desde a véspera, esse processo não demora muito.

Nesse momento, vem algo que também é importante demais para um corredor – a vaselina nos pontos “de risco” do corpo. Serve para não assar e é essencial. Não tem quem resista ao início de uma assadura no km20… Vaselina na virilha, no bico do peito, na cintura (onde a cinta com os géis irá esfregar com o movimento da cintura) e onde mais sentir necessidade. Para Paris, além dos géis de carboidratos, também levei uma embalagem extra (dessas pequenas) de vaselina na cinta. Em Chicago, fui salvo em um posto de apoio lá pelo km30, quando meu peito já começava a arder muito mesmo com toda a vaselina que tinha passado antes da prova. Mais tarde, agradeci pelo gesto precavido…

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Metrô lotado

Tinha marcado de me encontrar com o amigo (e xará) André Stepan na estação do metrô. Stepan, um antigo companheiro de Rádio Transamérica, estava hospedado num hotel bem próximo e, apesar de ter sentido uma contusão no mês final de preparação, iria tentar cumprir sua primeira maratona à base de infiltração. Uma hora e meia antes da corrida, estávamos lado a lado na estação Porte de Clichy do metrô parisiense. Algumas estações para baixo e saímos para a baldeação na Place de Clichy, rumo à Champs-Elyseés. Achei que esse trem não fosse sair do lugar, tamanho era o número de corredores dentro. Parecia hora do rush na Praça da Sé ou no Largo da Carioca! Lembrei de uma historia que aconteceu em Londres, se não me engano. O trem estava tão pesado que parou no meio do caminho! Os maratonistas tiveram que correr 3 km para chegar à linha de largada!

O susto foi passageiro. Chegamos são e salvos à área de largada, perto do Arco do Triunfo. Para um lado, a largada. Do outro, a chegada. Fui direto ao guarda-volumes, deixei minha mochila e fiquei apenas com a roupa da corrida. Até esse momento eu estava agasalhado, mas era hora de descartar a proteção do frio e partir para a vida real. De extra, uma camiseta de manga comprida velha, um gorro e um par de luvas para jogar fora depois de iniciada a prova. Serve apenas para manter o corredor aquecido antes do tiro de largada e, talvez, por alguns poucos minutos já durante a prova. Essa dica já está no manual de todo maratonista que vai disputar sua corrida no tempo frio. Dispensei a camiseta ao ouvir o tiro de largada, o gorro no primeiro quilômetro e a luva no terceiro ou quarto.

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Tiro de largada

Dada a largada, desejei boa sorte ao Stepan, acertei meu frequencimetro, disparei o cronômetro e parti para quatro horas (um pouquinho menos, se tudo desse certo) pelas ruas de Paris. Ao som de “I´ve Got a Feeling”, do Black Eyed Peas, bombando nos alto-falantes, os parisienses nos desejaram boa prova.

Demorei uns 10 minutos para cruzar a linha de largada, pois os locais de saída eram separados pelo tempo estimado em completar a prova. Os mais rápidos largando na frente, os mais lentos no fundão. E funcionou. O pelotão verde (todos os corredores usam uma pulseira com sua cor), para 4hs de prova, praticamente não tinha “intrusos”. Desde os primeiros metros, ritmo estabelecido e pé embaixo. Parei uma ou duas vezes para o número 1, mas nada que pesasse no relógio. Culpa da imensa ingestão de líquidos dos dias anteriores…

Paris é uma prova sem muita fanfarronice. Bem longe de uma São Silvestre, por exemplo. Ou até mesmo de Chicago. Nessas, sempre tem o cara vestido de árvore, de noiva, etc… Em Paris, são poucos engraçadinhos. O nível, no geral, é excelente. Você vê poucas pessoas desistindo, poucas “quebrando” e até mesmo se divertindo de forma extravasada durante a corrida. De vez em quando, alguém grita alguma coisa para apoiar, mas no geral é pé embaixo e muita concentração. O amigo Sérgio Xavier, que correu Paris em 2009, já tinha me alertado para essa característica. Dito e feito.

Respeitando o frequencimetro, encaixei um ritmo bom e com ele fui até a meia-maratona. Minha meta era passar muito próximo das 2hs de prova pela marca da meia. Em muitos momentos, você acha que dá para soltar mais, que tem “caixa” para mandar o sapato, mas não é bem assim. Minhas duas experiências anteriores e todos os ensimanentos que tive do meu também maratonista papai dizem: “uma maratona só começa depois dos 30”. E é isso mesmo. A marca é variável. No Rio, em 2007, comecei a sentir no km34, km35. Em Chicago, no km28. Em Paris, não daria essa bobeira. Iria me poupar e teria que, obrigatoriamente, fazer o split negativo – ou seja, a segunda metade mais rápida que a primeira, algo não conseguido nas duas anteriores. O email do Serginho na véspera reforçava o mantra: “faça o split negativo”.

Nessa primeira metade, saquei que o abastecimento não seria fácil. Os pontos de hidratação até estavam bem divididos, muitos deles com bastante fruta, mas ficavam apenas de um lado da rua. Quando chegava ao ponto era uma correria danada para pegar água, perdia-se tempo valioso na fila. Muitas pessoas atravessando a pista de um lado para o outro aumentavam o risco de uma “colisão”. Percebendo o tumulto, fugi do primeiro ponto e me preparei para estocar água a partir do segundo. As garrafinhas eram ótimas e não tive problemas para fazer apenas umas 3 ou 4 paradas, pois seguia com uma cheia para ir hidratando ao longo do percurso. A temperatura da água era ambiente – ou seja, geladinha.

Primeiro objetivo alcançado

Passei na meia com 1h59min25seg, dentro do previsto. Estava me sentindo bem, sempre monitorando os batimentos cardíacos. Sentia que puxava um pouco mais e segurava um pouco. Fui dosando energia dessa forma a prova praticamente inteira. Ali pela metade da prova, o peito começou a arder, como previsto, e a vaselina na cinta fez sua função com perfeição.

Lá pelo km27, senti a prova pela primeira vez. O percurso chega numa sequencia de túneis à beira do Rio Sena e aproveitei para comer metade de uma banana num dos postos de abastecimento. Estava com fome e querendo algo diferente de um gel e, por reflexo, ao pegar uma garrafinha de água, vi a caixa de bananas dando sopa, elas saborosas ali em cima… Peguei uma e mandei para dentro. Acho que meu estômago, já doido por uma comida mais farta, pensou: “é agora” e abriu o apetite. Obviamente, não era hora de almoçar ainda e o pedacinho de banana pode ter dado uma fraquejada ao invés de fortalecido meu corpo. O cansaço durou uns 3 quilômetros, mas a chegada da Torre Eiffel e a saída dos túneis deu uma animada boa para esquecer o drama e seguir.

Paris não é uma prova com muita participação do público. Muita gente vai às ruas, mas apenas para ver. Poucos são os que fazem festa, que incentivam. Quem quiser estrear na distância em Paris acreditando que o povão vai empurrar, esqueça. Paris é uma prova ótima, pois o percurso não é difícil (tirando a área dos túneis, uma outra subidinha leve) mas é para quem está com a cabeça boa e com a força de vontade em dia.

Durante toda a prova, senti muita confiança. Sabia que, se mantivesse o que tinha previsto, iria bater minha marca. Só não podia dar bobeira, querer escapar antes do tempo e quebrar. Bastava manter a concentração e a disciplina que iria levar na mala meu tempo desejado. Sabia que estava bem preparado, que tinha feito minha parte e que alcançaria o objetivo. Isso foi muito importante para me dar a tranqüilidade necessária para cadenciar o ritmo de forma precisa.

Momentos cruciais

A reta final de prova passa por um imenso parque chamado Bois du Boulogne. São vários quilômetros ali dentro, onde vivi dois momentos cruciais na prova – por volta do km37 ou km38, uma ambulância passou abrindo caminho. Como a rua era estreita, todo mundo foi obrigado a praticamente subir na estreita calçada para que ela passasse. Com um pouco de atenção, conseguimos todos fazer o que precisávamos sem perder tempo, apesar das árvores e dos galhos secos ameaçando espetar. Voltei à pista, mas acabou que não era apenas uma ambulância. Eram umas quatro ou cinco e todas vieram na sequencia, com intervalos de 10 ou 15 segundos entre elas. Não teve como não parar. Fomos todos obrigados a parar de correr e, com isso, fiz meu pior quilômetro de toda a prova – um 05:55 quando já estava rodando 05:25, 05:20 no progressivo. Foram 25, 30 segundos que poderiam ter me dado um tempo final de 03h57 ao invés de 03h58, mas apesar de lamentar não tenho do que reclamar.

A recompensa veio poucos metros adiante. Lá pelo km39, percebo um brasileiro (imagino que um treinador, pois estava com a camisa de uma conhecida assessoria paulistana) em cima de um banco incentivando solitariamente os companheiros de equipe que passavam por ali. Como éramos mais de 400, sempre tinha um brasileiro por perto e calhou que um desses da equipe estava um pouquinho a frente de mim. E o treinador, quando o viu, começou a berrar com uma paixão do tamanho do Stade de France: “agora é raça, rapaz. Agora é raça, você ta chegando, esquece de tudo agora e vai na raça!!!”. Ele batia no peito, vibrava, as veias saltando do pescoço, que força que esse cara despejou na gente… Primeiro, quando ele o avistou e gritou o nome (acho que era Paulão), pensei que iria dar alguma instrução, algo do gênero. Que nada… Ali, faltavam 3 quilômetros para terminar! Não tem instrução alguma, querido. Agora, é na raça mesmo. É buscando força de onde se pode, indo na alma e trazendo energia para as pernas. É na raça!

Caramba, aquilo me emocionou muito! Parecia que ele estava falando para mim! Eu já tinha meio que deixado o frequencimetro de lado alguns (poucos) quilômetros antes. Eu sabia que, quando chegasse no parque, era o coração na ponta da chuteira (do tênis, né?) e pé embaixo. Eu sabia que, nessa hora, era o coração quem falaria mais alto e desejava isso. Nas duas anteriores, baixei muito o ritmo nos quilômetros finais, mas não faria isso em Paris. Eu tinha guardado energias para chegar voando. E aqueles gritos de “raça, raça, raça” eram o que faltavam para socar o pé com força. Me emociono só de lembrar.

E, com lágrimas escorrendo pelo rosto, voei baixo. Rodei 05:20 no km41, 05:09 no km42, ritmo de 04:16 nos últimos 200m, ultrapassando muita gente para cruzar a linha de chegada com o tempo oficial de 3 horas, 58 minutos e 11 segundos, média de 5:38/km. Paris 2010 estava no bolso.

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Emoção demais

Putz, chorei muito. No Rio, na minha estreia, a emoção veio depois, quando falei ao telefone com meu pai que vibrou muito com a conquista. Em Chicago, também me emocionei bastante ao cruzar a linha de chegada, mas nada foi como Paris. Os últimos metros foram inundados de lembranças do período de treinamento, das horas correndo sozinho ainda de madrugada na Lagoa, nas manhãs de quarta-feira me recuperando na cama torcendo para o relógio andar devagar e poder dormir um pouquinho antes de ir para o trabalho…

Tudo vem de uma forma avassaladora na mente. A satisfação é enorme. Só quem esteve lá sabe o que é. Missão cumprida!

Sozinho, fui receber a medalha cantando bem alto: “I´ve got a feeling, cause tonight is gonna be a good night!”. Bom demais! Até a próxima. Au revoir, Paris…

PS: o amigo André Stepan, à base de injeções, correu sem sentir dores e terminou sua primeira maratona em 4h04min. Parabéns, xará! Outro companheiro de corrida, que esteve comigo na corrida de 5K da véspera, o Joca, também estreou na distância e, apesar de ter sofrido muito nos 7km finais, cruzou a linha de chegada em 4h22min. Parabéns, Joca!

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