
Porto Alegre, Londres ou Paris?
Foi em outubro do ano passado que nasceu a ideia de correr a maratona mais charmosa do planeta – Paris. Terminei a prova de Chicago um pouco decepcionado por não ter melhorado meu tempo (era de 4h08 no Rio, terminei a norte-americana em 4h09). Decidi que faria um treinamento mais focado e que quebraria a barreira do “sub-4hs” em 2010. Como teremos uma Copa do Mundo pela frente, seria muito complicado me preparar para uma prova de segundo semestre – mais de um mês na África sabe-se lá se conseguindo correr ou não, depois uns dias de férias… Melhor garantir logo no primeiro semestre…
Já expliquei aqui no blog as complicações de se correr maratonas conciliando com meu tipo de trabalho. Por estar sempre narrando nos sábados e domingos, os treinamentos são mais solitários e a prova em si é mais complicada. Já fiz muita prova chegando apenas no dia com algum amigo pegando meu kit, mas para uma maratona não daria. O lado positivo é que os campeonatos que nós transmitimos já tinham suas tabelas todas definidas, seria mais fácil escolher um fim-de-semana sem clássicos. No entanto, esses mesmos campeonatos estariam nas retas finais e, por serem todos de pontos corridos, mesmo sem ter um grande clássico poderíamos ter, quem sabe, o jogo do título. O jeito foi planejar e rezar para dar tudo certo.
Porto Alegre, Londres ou Paris – uma delas seria minha maratona de 2010. Pela ordem de preferência, inclusive. Porto Alegre seria a bola de segurança: perto, barata, com gente disponível para pegar meu kit caso tivesse que narrar no sábado, voos com boa freqüência do Rio de Janeiro, volta tranqüila para casa e, pelo que sei, uma agradável prova para se correr. Data? Dia 23 de maio, dia seguinte da decisão da Liga dos Campeões. Naquela altura, a chance era razoável de estar em Madrid não em Porto Alegre nesse dia. Porto Alegre ficou para outro ano. Opção 2: Londres. Data? Final de abril. Hmmm, complicado, hein? Campeonatos muito próximos de suas decisões, mas pelo menos estaria perto desse jogo decisivo. O máximo que poderia acontecer seria a decisão ser do Italiano ou do Alemão, mas até aí nada que um voo de duas horas não resolvesse. Na pior das hipóteses, iria a Londres, pegaria meu kit, viajaria para narrar o jogo e voltaria a tempo. Resolvi apostar! Dias depois, inscrição negada. A maratona responsável pelos 195 metros depois dos 42 km ficou para outro ano também. Então, amigo, por pura falta de opção, vamos à Paris! Data? Dia 11 de abril, sem clássicos, sem jogo de Liga na terça seguinte (poderia voltar sem muita pressa ao Brasil), inscrição aceita, tudo funcionando. Show!
Já falei aqui também que Paris não é minha cidade preferida, longe disso. E cada vez que venho consolido essa minha opinião. Mas para correr uma maratona pelos pontos turísticos da cidade, acho que valeria bem a pena, né? E como eu disse, essa maratona não era para fazer passeio, era para bater minha marca e virar um maratonista sub-4hs. Portanto, poderia ser na Disney que não sairia do hotel para muita coisa nos dias anteriores à corrida.
O detalhe é que tudo isso que eu planejava corria um baita risco de virar do avesso se meu chefe não concordasse. Sim, quando decide-se correr uma maratona, não basta você topar o desafio. Sua família, seus amigos e até seu chefe têm que entrar na loucura, senão baubau… Sou um cara planejado, tenho bom senso e jamais pediria algo que não pudesse realmente ser topado pela chefia, pois sei do tamanho do pepino que é pedir para folgar 4 ou 5 dias seguidos incluindo um fim-de-semana, mas o risco sempre existe. Não precisei mais do que 5 minutos para receber o sinal verde, ainda mais que o chefe também foi picado pelo mosquitinho da corrida… Show! Paris, aqui vou eu!
Chega de treinar sozinho
Também já devo ter comentado por aqui que adorava fazer meus treinamentos por conta própria. Boa parte da satisfação em se tornar corredor, é também se tornar um planejador. Você passa a contabilizar quilometragem rodada, média, velocidade, até o seu tênis para a ter um “odômetro” marcando os quilômetros rodados… Mas senti que, para bater minha meta, precisaria de um treinamento de um profissional. Decidi pedir ajuda a quem conhece. Sabia que o jornalista e amigo Ricardo Capriotti (da Rádio Bandeirantes, de SP) treinava há algum tempo com alguém. Entrei em contato com ele e fui fortemente recomendado a trabalhar com o Mário Mello, da assessoria Marios Team. Não consegui falar com ele de primeira, pois estava em Nova York acompanhando um grupo que corria a maratona (pensei comigo de imediato: esse é o cara! Tá lá em NY com os alunos!), mas logo conversamos e iniciamos nosso trabalho.
Ter começado a trabalhar com o Mário foi uma decisão mais do que acertada. Essa foi na mosca. Não tanto pela diferença de treinamento em si, pois eu fazia um trabalho bem razoável sozinho, mas o apoio nos momentos de dúvida (perdi um treino, e agora?), a troca de informações sobre as dificuldades que tive nas maratonas anteriores e como corrigi-las, a entrada do frequencimetro nos meus treinos… E muitos outros detalhes. Meu treino não era de bobo, mas foi incrementado. E vários outros fatores me fizeram ter a certeza que estava no caminho correto. E o Mário, além de tudo, também é maratonista. Isso faz uma baita diferença, pois ele sabe exatamente os dramas que nós temos quando partimos para correr essa prova. Valeu, Marião!
Nunca mais no primeiro semestre
É, enquanto morar no Rio de Janeiro, vou pensar uma, duas, dez, cem vezes antes de topar correr outra maratona no primeiro semestre. Treinar no verão forte foi um sacrifício absurdo, já retratado aqui. Quantas vezes tive que acordar às 03:30, 04:00 da manhã para fazer meu longão? Tá louco. Em sã consciência, maratona no primeiro semestre nunca mais…
Misturando pessoal com profissional
A viagem que era apenas para a corrida acabou se transformando numa mini-excursão à Europa para narrar dois jogos importantes e que se mostraram históricos. Quando fui pedir minha liberação para correr Paris recebi de volta uma sugestão – que acabou se realizando – de ir alguns dias antes para narrar Manchester United e Chelsea na Inglaterra e um jogo das quartas-de-final da Liga dos Campeões, que ainda não sabíamos qual seria naquela época.
Se tivéssemos escolhido, a dedo, já sabendo de tudo o que só viemos a saber depois, tenho uma forte suspeita que teríamos optado por esses exatos dois jogos – o primeiro praticamente decidiu o Campeonato Inglês, o segundo acabou sendo o jogo histórico de Messi metendo quatro gols contra o Arsenal, no Camp Nou. Os deuses do futebol estavam do nosso lado.
Claro que a viagem que seria um pouco diferente do que tinha planejado – de cara, teria que perder o aniversário do meu filho pois no dia 1º de abril já tinha que estar lá na Inglaterra e não em SP com ele, mas isso faz parte da vida de qualquer jornalista. Sofri muito, muito mesmo por estar sozinho numa cinzenta Manchester enquanto poderia estar comemorando com ele, mas adiamos a festa para a volta e tudo seria recompensado. Faz parte. E os dias que antecederiam a prova seriam um pouco mais puxado que o normal, correndo de um lado para o outro, fazendo conexões pela Europa, carregando equipamentos… Tudo bem, seria bom para a empresa, bom para mim e a maratona seria o ponto final de uma ótima viagem profissional.
A cabeça tenta fugir
Acabou que não foi tão bem assim. Tivemos alguns problemas técnicos e nossa transmissão de Manchester não ficou 100%. A de Barcelona, nem aconteceu. Isso fez com que o foco da maratona (já completamente desviado nos dias na Inglaterra e na Espanha) se desviasse por completo. Decepções mexem com nossa cabeça, afetam nosso raciocínio, nosso descanso, nosso sono e tudo prejudica a corrida. Foi preciso uma boa dose de calma e paciência para deixar a decepção passar e dar lugar ao objetivo de Paris.
Os treinos até que aconteceram bem nesses dias. Foi ótimo, por exemplo, correr em Manchester e em Barcelona para já ir acostumando ao frio. Conheci belos parques, corri pelas ruas da Catalunha e isso rende boas historias para levarmos na memória, mas a cabeça pesou demais.
A quarta-feira foi inteirinha de tristeza. Fiquei o dia inteiro em Barcelona e saí do hotel apenas para dar uma volta ali por perto, sem ânimo para nada. A decepção da não-transmissão da véspera foi enorme. Ainda na terça à noite, fiz participações em vários programas de rádio do Brasil. Todos sabiam que eu estava lá e, depois que Messi fez historia, passei a ser “notícia” também. Mas não estava feliz, muito pelo contrário. Eu nem tinha visto o jogo com calma, para falar a verdade. Claro que vi que o argentino acabou com o Arsenal, mas minha cabeça não estava no Camp Nou ou em Barcelona. E na quarta que tirei para descansar, Messi estava por todos os lados – jornais, TVs, internet. Minha decepção só aumentava. Pensei comigo que era hora de dar um basta e meter a cara na maratona. Na quinta-feira, às 03:30 da manhã despertei, mas não para fazer um longão no calor do Rio, mas para embarcar para Paris!
Tá chegando a hora
Quem acompanha o blog já sabe de tudo que antecedeu a prova. Vamos, então, partir para o grande dia. A previsão do tempo já indicava que seria um domingo maravilhoso, de céu azul e sol brilhando intensamente. Mínima prevista de 4 graus, máxima de 15. Pelas minhas contas, teríamos uma maratona entre 7 e 12 graus. Perfeito!
Acordei 3 horas antes da prova agradecendo aos céus pelo café da manhã do hotel já estar funcionando nesse horário. Daria para, pela primeira vez, fazer uma refeição decente antes de uma maratona. Imediatamente, ao cair da cama, desci e já encontrei os primeiros companheiros de maratona do dia – alguns suecos, dois portugueses e um de nacionalidade não-identificada faziam o desjejum. Vale registrar aqui que 35% dos 40.000 inscritos eram estrangeiros – muitos italianos, ingleses e mais de 400 brasileiros. Incrível!
Pães com geleia, café forte para despertar (como se precisasse…), sucos, bolo e de volta para o quarto. É hora de… fazer o número 2. Tudo bem, eu não precisava entrar nesse nível de detalhamento, mas isso é muito importante antes de uma corrida! Tem que liberar o que está por ali, senão é batata: vai ter que se virar no meio da prova. E olha que tem gente que se vira como pode mesmo – muita gente sai correndo para o mato no meio de uma maratona. Acontece tanto que passa a ser normal nem se espantar com alguém partindo no sprint para a moita… Depois do momento de solidão, um banho rápido e vestimenta no corpo. Com tudo já preparado desde a véspera, esse processo não demora muito.
Nesse momento, vem algo que também é importante demais para um corredor – a vaselina nos pontos “de risco” do corpo. Serve para não assar e é essencial. Não tem quem resista ao início de uma assadura no km20… Vaselina na virilha, no bico do peito, na cintura (onde a cinta com os géis irá esfregar com o movimento da cintura) e onde mais sentir necessidade. Para Paris, além dos géis de carboidratos, também levei uma embalagem extra (dessas pequenas) de vaselina na cinta. Em Chicago, fui salvo em um posto de apoio lá pelo km30, quando meu peito já começava a arder muito mesmo com toda a vaselina que tinha passado antes da prova. Mais tarde, agradeci pelo gesto precavido…

Metrô lotado
Tinha marcado de me encontrar com o amigo (e xará) André Stepan na estação do metrô. Stepan, um antigo companheiro de Rádio Transamérica, estava hospedado num hotel bem próximo e, apesar de ter sentido uma contusão no mês final de preparação, iria tentar cumprir sua primeira maratona à base de infiltração. Uma hora e meia antes da corrida, estávamos lado a lado na estação Porte de Clichy do metrô parisiense. Algumas estações para baixo e saímos para a baldeação na Place de Clichy, rumo à Champs-Elyseés. Achei que esse trem não fosse sair do lugar, tamanho era o número de corredores dentro. Parecia hora do rush na Praça da Sé ou no Largo da Carioca! Lembrei de uma historia que aconteceu em Londres, se não me engano. O trem estava tão pesado que parou no meio do caminho! Os maratonistas tiveram que correr 3 km para chegar à linha de largada!
O susto foi passageiro. Chegamos são e salvos à área de largada, perto do Arco do Triunfo. Para um lado, a largada. Do outro, a chegada. Fui direto ao guarda-volumes, deixei minha mochila e fiquei apenas com a roupa da corrida. Até esse momento eu estava agasalhado, mas era hora de descartar a proteção do frio e partir para a vida real. De extra, uma camiseta de manga comprida velha, um gorro e um par de luvas para jogar fora depois de iniciada a prova. Serve apenas para manter o corredor aquecido antes do tiro de largada e, talvez, por alguns poucos minutos já durante a prova. Essa dica já está no manual de todo maratonista que vai disputar sua corrida no tempo frio. Dispensei a camiseta ao ouvir o tiro de largada, o gorro no primeiro quilômetro e a luva no terceiro ou quarto.

Tiro de largada
Dada a largada, desejei boa sorte ao Stepan, acertei meu frequencimetro, disparei o cronômetro e parti para quatro horas (um pouquinho menos, se tudo desse certo) pelas ruas de Paris. Ao som de “I´ve Got a Feeling”, do Black Eyed Peas, bombando nos alto-falantes, os parisienses nos desejaram boa prova.
Demorei uns 10 minutos para cruzar a linha de largada, pois os locais de saída eram separados pelo tempo estimado em completar a prova. Os mais rápidos largando na frente, os mais lentos no fundão. E funcionou. O pelotão verde (todos os corredores usam uma pulseira com sua cor), para 4hs de prova, praticamente não tinha “intrusos”. Desde os primeiros metros, ritmo estabelecido e pé embaixo. Parei uma ou duas vezes para o número 1, mas nada que pesasse no relógio. Culpa da imensa ingestão de líquidos dos dias anteriores…
Paris é uma prova sem muita fanfarronice. Bem longe de uma São Silvestre, por exemplo. Ou até mesmo de Chicago. Nessas, sempre tem o cara vestido de árvore, de noiva, etc… Em Paris, são poucos engraçadinhos. O nível, no geral, é excelente. Você vê poucas pessoas desistindo, poucas “quebrando” e até mesmo se divertindo de forma extravasada durante a corrida. De vez em quando, alguém grita alguma coisa para apoiar, mas no geral é pé embaixo e muita concentração. O amigo Sérgio Xavier, que correu Paris em 2009, já tinha me alertado para essa característica. Dito e feito.
Respeitando o frequencimetro, encaixei um ritmo bom e com ele fui até a meia-maratona. Minha meta era passar muito próximo das 2hs de prova pela marca da meia. Em muitos momentos, você acha que dá para soltar mais, que tem “caixa” para mandar o sapato, mas não é bem assim. Minhas duas experiências anteriores e todos os ensimanentos que tive do meu também maratonista papai dizem: “uma maratona só começa depois dos 30”. E é isso mesmo. A marca é variável. No Rio, em 2007, comecei a sentir no km34, km35. Em Chicago, no km28. Em Paris, não daria essa bobeira. Iria me poupar e teria que, obrigatoriamente, fazer o split negativo – ou seja, a segunda metade mais rápida que a primeira, algo não conseguido nas duas anteriores. O email do Serginho na véspera reforçava o mantra: “faça o split negativo”.
Nessa primeira metade, saquei que o abastecimento não seria fácil. Os pontos de hidratação até estavam bem divididos, muitos deles com bastante fruta, mas ficavam apenas de um lado da rua. Quando chegava ao ponto era uma correria danada para pegar água, perdia-se tempo valioso na fila. Muitas pessoas atravessando a pista de um lado para o outro aumentavam o risco de uma “colisão”. Percebendo o tumulto, fugi do primeiro ponto e me preparei para estocar água a partir do segundo. As garrafinhas eram ótimas e não tive problemas para fazer apenas umas 3 ou 4 paradas, pois seguia com uma cheia para ir hidratando ao longo do percurso. A temperatura da água era ambiente – ou seja, geladinha.
Primeiro objetivo alcançado
Passei na meia com 1h59min25seg, dentro do previsto. Estava me sentindo bem, sempre monitorando os batimentos cardíacos. Sentia que puxava um pouco mais e segurava um pouco. Fui dosando energia dessa forma a prova praticamente inteira. Ali pela metade da prova, o peito começou a arder, como previsto, e a vaselina na cinta fez sua função com perfeição.
Lá pelo km27, senti a prova pela primeira vez. O percurso chega numa sequencia de túneis à beira do Rio Sena e aproveitei para comer metade de uma banana num dos postos de abastecimento. Estava com fome e querendo algo diferente de um gel e, por reflexo, ao pegar uma garrafinha de água, vi a caixa de bananas dando sopa, elas saborosas ali em cima… Peguei uma e mandei para dentro. Acho que meu estômago, já doido por uma comida mais farta, pensou: “é agora” e abriu o apetite. Obviamente, não era hora de almoçar ainda e o pedacinho de banana pode ter dado uma fraquejada ao invés de fortalecido meu corpo. O cansaço durou uns 3 quilômetros, mas a chegada da Torre Eiffel e a saída dos túneis deu uma animada boa para esquecer o drama e seguir.
Paris não é uma prova com muita participação do público. Muita gente vai às ruas, mas apenas para ver. Poucos são os que fazem festa, que incentivam. Quem quiser estrear na distância em Paris acreditando que o povão vai empurrar, esqueça. Paris é uma prova ótima, pois o percurso não é difícil (tirando a área dos túneis, uma outra subidinha leve) mas é para quem está com a cabeça boa e com a força de vontade em dia.
Durante toda a prova, senti muita confiança. Sabia que, se mantivesse o que tinha previsto, iria bater minha marca. Só não podia dar bobeira, querer escapar antes do tempo e quebrar. Bastava manter a concentração e a disciplina que iria levar na mala meu tempo desejado. Sabia que estava bem preparado, que tinha feito minha parte e que alcançaria o objetivo. Isso foi muito importante para me dar a tranqüilidade necessária para cadenciar o ritmo de forma precisa.
Momentos cruciais
A reta final de prova passa por um imenso parque chamado Bois du Boulogne. São vários quilômetros ali dentro, onde vivi dois momentos cruciais na prova – por volta do km37 ou km38, uma ambulância passou abrindo caminho. Como a rua era estreita, todo mundo foi obrigado a praticamente subir na estreita calçada para que ela passasse. Com um pouco de atenção, conseguimos todos fazer o que precisávamos sem perder tempo, apesar das árvores e dos galhos secos ameaçando espetar. Voltei à pista, mas acabou que não era apenas uma ambulância. Eram umas quatro ou cinco e todas vieram na sequencia, com intervalos de 10 ou 15 segundos entre elas. Não teve como não parar. Fomos todos obrigados a parar de correr e, com isso, fiz meu pior quilômetro de toda a prova – um 05:55 quando já estava rodando 05:25, 05:20 no progressivo. Foram 25, 30 segundos que poderiam ter me dado um tempo final de 03h57 ao invés de 03h58, mas apesar de lamentar não tenho do que reclamar.
A recompensa veio poucos metros adiante. Lá pelo km39, percebo um brasileiro (imagino que um treinador, pois estava com a camisa de uma conhecida assessoria paulistana) em cima de um banco incentivando solitariamente os companheiros de equipe que passavam por ali. Como éramos mais de 400, sempre tinha um brasileiro por perto e calhou que um desses da equipe estava um pouquinho a frente de mim. E o treinador, quando o viu, começou a berrar com uma paixão do tamanho do Stade de France: “agora é raça, rapaz. Agora é raça, você ta chegando, esquece de tudo agora e vai na raça!!!”. Ele batia no peito, vibrava, as veias saltando do pescoço, que força que esse cara despejou na gente… Primeiro, quando ele o avistou e gritou o nome (acho que era Paulão), pensei que iria dar alguma instrução, algo do gênero. Que nada… Ali, faltavam 3 quilômetros para terminar! Não tem instrução alguma, querido. Agora, é na raça mesmo. É buscando força de onde se pode, indo na alma e trazendo energia para as pernas. É na raça!
Caramba, aquilo me emocionou muito! Parecia que ele estava falando para mim! Eu já tinha meio que deixado o frequencimetro de lado alguns (poucos) quilômetros antes. Eu sabia que, quando chegasse no parque, era o coração na ponta da chuteira (do tênis, né?) e pé embaixo. Eu sabia que, nessa hora, era o coração quem falaria mais alto e desejava isso. Nas duas anteriores, baixei muito o ritmo nos quilômetros finais, mas não faria isso em Paris. Eu tinha guardado energias para chegar voando. E aqueles gritos de “raça, raça, raça” eram o que faltavam para socar o pé com força. Me emociono só de lembrar.
E, com lágrimas escorrendo pelo rosto, voei baixo. Rodei 05:20 no km41, 05:09 no km42, ritmo de 04:16 nos últimos 200m, ultrapassando muita gente para cruzar a linha de chegada com o tempo oficial de 3 horas, 58 minutos e 11 segundos, média de 5:38/km. Paris 2010 estava no bolso.

Emoção demais
Putz, chorei muito. No Rio, na minha estreia, a emoção veio depois, quando falei ao telefone com meu pai que vibrou muito com a conquista. Em Chicago, também me emocionei bastante ao cruzar a linha de chegada, mas nada foi como Paris. Os últimos metros foram inundados de lembranças do período de treinamento, das horas correndo sozinho ainda de madrugada na Lagoa, nas manhãs de quarta-feira me recuperando na cama torcendo para o relógio andar devagar e poder dormir um pouquinho antes de ir para o trabalho…
Tudo vem de uma forma avassaladora na mente. A satisfação é enorme. Só quem esteve lá sabe o que é. Missão cumprida!
Sozinho, fui receber a medalha cantando bem alto: “I´ve got a feeling, cause tonight is gonna be a good night!”. Bom demais! Até a próxima. Au revoir, Paris…
PS: o amigo André Stepan, à base de injeções, correu sem sentir dores e terminou sua primeira maratona em 4h04min. Parabéns, xará! Outro companheiro de corrida, que esteve comigo na corrida de 5K da véspera, o Joca, também estreou na distância e, apesar de ter sofrido muito nos 7km finais, cruzou a linha de chegada em 4h22min. Parabéns, Joca!