
Falar sobre a má fase do Arsenal é tema batido. Lembrar que o clube não ganha um título desde 2005 também não é novidade. Wenger vira o centro das atenções, seja pelos resultados ou pela sua filosofia. Com razão, mas… E financeiramente?
Segundo um estudo feito pela associação de torcedores do clube (AST), Wenger terá cerca de £50 milhões para gastar na próxima janela. Isso se o Arsenal não ficar fora da Liga dos Campeões pela primeira vez após 14 participações consecutivas, o que representaria um prejuízo de £45 milhões. Mais do que a análise do trabalho de campo de Wenger, uma pergunta deve ser feita:
FALTA DINHEIRO OU FALTA SABER INVESTIR?
Muita gente olha para a última janela de transferências e pensa: o Arsenal ganhou muito dinheiro com as vendas de Fabregas e Nasri. Em parte, é verdade. Foram £55 milhões só com os dois e cerca de £70 milhões se também considerarmos Clichy, Eboué, Traoré e etc. O problema é que pouco sobrou disso. O Arsenal não conseguiu reposição, mas gastou £53 milhões tentando. Apenas lembrando os principais nomes:
Gervinho – £10,6m
Oxlade-Chamberlain – £12m
André Santos – £6,2m
Arteta – £10m
Mertesacker – £10m
Não parece ser apenas questão de falta de dinheiro, mas sim de saber investir. O Tottenham pode terminar o Campeonato Inglês na frente do rival do norte de Londres pela primeira vez desde 94/95. E não por acaso. Não é segredo que os Spurs têm sido mais ativos que os Gunners no mercado. Somando todos os valores de transferências desde a temporada 2005/06, o Tottenham teve cerca de £90 milhões de “prejuízo” (ou investimento), enquanto o Arsenal tem um “lucro” de quase £50 milhões (vendeu mais do que comprou). Mas nem sempre é necessário gastar uma fortuna para conseguir bons nomes. E basta olhar para a base atual do Tottenham e ver quanto foi pago alguns jogadores importantes.
Friedel – Livre
Kyle Walker – £3m
Parker – £6m
Van der Vaart – £8m
Kaboul – £5m
Modric – £16m
Bale – £6m
Assou-Ekotto – £3,5m
Lennon – £1m
Claro que negócios bem discutíveis foram realizados ao longo do percurso (Pavlyuchenko, Bentley, Gomes, Hutton, Darren Bent, Zokora, etc) e que nem toda aposta vira realidade. Mas nos últimos anos, as apostas do Arsenal não parecem coerentes com a necessidade de manutenção entre as principais forças do futebol inglês. Ou basta ver que certas apostas não são tão baratas assim e que é possível gastar a mesma quantia em jogadores já mais experientes e que podem acrescentar mais.
É óbvio que o forte investimento aplicado em Chelsea e Man City muda o panorama e complica a vida de quem tem um dono (ou sócio majoritário) que não gosta de colocar o próprio dinheiro no negócio.

Até por isso, a comparação foi feita com o Tottenham. O curioso é que se pegarmos o balanço econômico dos clubes na temporada 2010/11, o Arsenal gastou £40 milhões a mais em salários do que o rival do norte de Londres (somando jogadores, staff e funcionários – é o 4º clube que mais gasta na Premier League).
E aí surgem outras questões. A primeira é sobre a qualidade do departamento médico, por exemplo. A segunda é em relação aos salários pagos a um elenco tão discutível. Elenco que contou com absurdos 71 jogadores na temporada 2010/11, considerando todos os jovens emprestados ou nos times inferiores (reservas e sub-18).
Basta dizer que Almunia, Fabianski, Squillaci, Djourou, Benayoun, Chamakh, Diaby, Arshavin e Rosicky estão na lista dos que ganham por volta de £50 mil por semana. Fazendo um simples cálculo, vemos que o Arsenal gasta mais de £25 milhões por ano só com os salários dos nove jogadores. É ou não é um absurdo? É dinheiro suficiente para uma grande contratação por ano ou para bancar salários de jogadores do nível que o clube precisa.
E FORA DO ELENCO?
Depois de olhar para dentro do elenco, também é importante analisar a situação comercial de que o Arsenal é “refém”. O arrecadamento do Arsenal estacionou em 2007 e não houve grande crescimento desde então. Dizer que a mudança para o Emirates é a principal justificativa não é totalmente verdade, pois foi a mudança que projetou o Arsenal para a segunda colocação no ranking de arrecadação do futebol inglês em 2007.
Seguindo números divulgados pela Deloitte, a arrecadação abrange três caminhos: o “matchday” (dinheiro dos dias de jogos com ingressos, produtos oficiais, vendas nas lojas do clube, etc), os acordos comerciais (patrocínios e parcerias) e os direitos de transmissão.

Na verdade, o grande problema do Arsenal está na estagnação dos valores arrecadados comercialmente, em que é apenas o 13º colocado no ranking dos clubes europeus, com £44 milhões, muito abaixo de gigantes como Bayern de Munique (£142m) e Real Madrid (£124m). O Manchester United foi o primeiro clube inglês a bater os £100 milhões de arrecadação comercial. Só a diferença de £57m para o Arsenal já representa o suficiente a bancar o salário de dez jogadores que recebam £100 mil por semana.
Isso explica bastante sobre a situação do Arsenal. Antes do início da temporada atual, Wenger chegou a comentar o aumento de 6,5% no preço dos ingressos do clube, dizendo que seria uma maneira de aumentar a chance de disputa com os gigantes. Mas por que isso precisa cair no preço dos ingressos?
Aí entra a parte em que o Emirates Stadium tem (indiretamente) sua parcela de culpa. Quando se fala em pagar “eternamente” o estádio, não é bem uma verdade absoluta. De acordo o “Swiss Ramble”, o financiamento prevê que o Arsenal pague £14 milhões por ano para quitar a dívida. Nada de outro planeta.
O grande problema está nos acordos comerciais firmados pelo Arsenal na época. A Emirates pagou £90 milhões (£42m + £48m) por 15 anos de “naming rights” (até 2020/21) e 8 anos de patrocínio estampado na camisa. No mesmo período, o clube fechou por 7 anos com a Nike recebendo £55 milhões.
Se fizermos uma simples comparação com outros clubes, vemos que os £5,5 milhões que o Arsenal fatura por temporada com patrocínio de camisa significam muito pouco. O Liverpool ganha £20 milhões só da Standard Chartered, enquanto Man Utd (Aon) e Man City (Etihad) faturam valores parecidos. Mais uma vez comparando com o Tottenham, os Spurs também saem na frente, com £12,5 milhões por ano, mais que o dobro dos Gunners. Nos contratos com as empresas de material esportivo, o drama é o mesmo: o Arsenal recebe £8 milhões por ano da Nike, mesma empresa que paga £25,4 milhões para o Man Utd. E o Liverpool acaba de fechar um acordo com a Warrior Sports para faturar £25 milhões por temporada. É uma fonte e tanto de dinheiro que o Arsenal simplesmente não recebe porque fechou longos contratos com valores bons para a época (hoje, totalmente ultrapassados).
ENTENDENDO A DIREÇÃO DO CLUBE
A administração do Arsenal é feita de uma maneira diferente da maioria dos clubes ingleses. O clube é uma empresa e não tem um dono como os “Glazers” ou Abramovich, mas sim um sócio majoritário. No caso, o americano Stan Kroenke tem 66% do clube, mas prefere não participar de forma intensa do comando. Além de não participar injetando seu próprio dinheiro, ele já deu polêmicas entrevistas defendendo a filosofia dos Glazers no Man Utd, alegando que não vê problemas no dono tirar dinheiro do clube.
Kroenke é dono do Denver Nuggets (NBA), do Colorado Rapids (MLS), St.Louis Rams (NFL) e do Colorado Avalanche (NHL). Somando tudo isso, a conclusão de boa parte da torcida é que ele simplesmente não liga para o resultado dentro de campo, desde que consiga obter algum retorno financeiro. Tanto que ele já disse que considera Wenger o homem certo para permanecer no cargo por vários anos, independente do que aconteça.
Hoje, a questão para o Arsenal é pensar no “Fair Play Econômico” como maneira de tentar levar vantagem sobre os demais, já que não teria grandes problemas para atender a todas as exigências da nova regra da Uefa. Mas quem garante que a ideia vai “pegar”?
Muito mais rico que Kroenke é Alisher Usmanov, dono de 29% do Arsenal. Difícil dizer se seria melhor ou pior, mas o uzbeque poderia transformar o cenário do clube londrino. Já demonstrou interesse pela fatia de Kroenke, que não pretende abrir mão de seu poder. Por enquanto, nada muda.
* Fontes (gráficos e informações): Swiss Ramble, Deloitte, Transfer League, Arsenal Brasil
**Dica: Para quem tem interesse em acompanhar (em português) o que acontece no clube, a galera do “Arsenal Brasil” faz um ótimo trabalho. Vale a pena conhecer o site e a ótima iniciativa da revista. Eles falam mais detalhadamente sobre o assunto nos links 1 2 e 3
http://www.arsenalbrasil.com.br/?p=3437